O medo impede a retomada




Por Eduardo de Gaspari


    Economia é uma ciência humana, demasiadamente humana. Muito se difunde o contrário, muita tinta e muito papel foram gastos para tentar transformá-la em uma ciência exata e objetiva, próxima da física, apolítica e ahistórica. Todo esse esforço foi em vão, pois é impossível negar a sua essência: uma ciência humana dramaticamente concreta, subjetiva e incerta. Deveria inclusive mudar de nome para psicologia de massa aplicada à produção, pois de fato é isso o que ela é.
    Defendo o meu ponto com um exemplo concreto: na última semana a Sinners, consagrada casa noturna LGBTS consolidada na cena da contra-cultura de Porto Alegre, anunciou o seu fechamento. A decisão tomou de surpresa toda uma geração que cresceu frequentando o local, tendo a casa como referência de ambiente plural e diverso, onde todos se sentiam à vontade para viverem a plenitude do seu potencial como indivíduos e se descobrirem, quebrando tabus e preconceitos. Em entrevista ao jornal Zero Hora¹, os proprietários não relacionam a tomada de decisão a nenhum entrave burocrático ou regulatório por parte do poder local, mas justificam o fim das noites de entretenimento à “mudança do momento político do país”, afirmando que “o viés político misturado com festa não tem dado o mesmo resultado” e “o projeto inicial perdeu o link que tinha com o público”.
    A verdade é que existe um contingente enorme de pessoas com medo de sair de casa, e por isso o empreendimento perdeu viabilidade econômica. Há medo de ir a uma festa como a Sinners, presente em segmentos cada vez maiores da população, medo de ser feliz, de viver, de comprar e consumir. O medo desorganiza completamente a produção do produto, ao amplificar a percepção da incerteza sobre o amanhã. O entretenimento que deixa de ser produzido na Sinners, é o salário que deixa de ser pago aos seus seguranças, meninos e meninas do bar, DJs. É o consumo que é retraído também em outros estabelecimentos em função disso. É a tributação que deixa de ser arrecadada, pois a produção não ocorreu. É o copo de catucombo com gelo que não é bebido em dobro até a meia noite. É a encomenda de bebidas que não chega na indústria e tem o mesmo impacto por lá também. É a vida que deixa de ser vivida e a atividade econômica que passa a ser contraída, potencializando o déficit fiscal do Estado e também o desemprego. 

    O mesmo vale para os milhões de professores e alunos país afora, das redes públicas e privada, juntamente com seus familiares, atacados todos os dias na televisão como idiotas. Esses passam a retardar suas decisões de consumo e desencadear o mesmo efeito nas comunidades onde estão inseridos. O mesmo vale para o pequeno empresário do setor interno, que atende toda essa gente. E mesmo para o grande empresário também. 
    O dinheiro gay é o mesmo dinheiro hétero: o real. O dinheiro da esquerda é o mesmo dinheiro da direita: o real. O dinheiro do educador vale tanto quanto o troco do lanche do aluno separado para ser gasto na cantina. Ao falar grosso contra diversos segmentos sociais na mídia, como se eles não existissem na vida real, o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros assustam a sociedade civil e aprofundam a crise brasileira, dificultando o próprio ajuste fiscal ao qual se propõem. É preciso encerrar a retórica autoritária, diminuir a ansiedade social, sentar a bunda na cadeira e começar a organizar a retomada. Como nos ensinou Frank Delano Roosevelt, a única coisa a temer é o próprio medo. Se o governo não resolver o curto prazo, não haverá o longo prazo, pois estaremos todos mortos.
Obs¹: ISADORA NEUMANN (Porto Alegre). Frequentadores lamentam anúncio do fechamento da Sinners na Cidade Baixa. Zero Hora. Porto Alegre, p. 1-2. 10 maio 2019. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2019/05/frequentadores-lamentam-anuncio-do-fechamento-da-sinners-na-cidade-baixa-cjviitao3035a01matbtwoo1w.html&gt;. Acesso em: 17 maio 2019. 

*Eduardo de Gaspari é mestre em Economia do Desenvolvimento pela UFRGS

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