
Por Eduardo De Gaspari
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, nessa quinta (30/05), o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) para o 1º trimestre de 2019. No mesmo dia, ocorreram novos protestos em todo o país em defesa da manutenção do orçamento da educação. A tentação para associar a retração em 0,2% da atividade econômica com a paralisação de estudantes, professores e pesquisadores é grande, especialmente em tempos de obscurantismo e anticientificismo.
A argumentação pode acalentar mentes sedentas por explicações simplistas para problemas complexos e apontar bodes expiatórios para a própria falta de habilidade política da aliança que ascendeu ao poder, mas não resiste ao menor contraste com a realidade.
Para assumir a relação de causa e efeito como verdade, é necessário cometer uma sequência gritante de erros. Primeiramente, é preciso atribuir uma força ao movimento estudantil muito maior do que de fato ele possui. Por mais que as manifestações tenham contado com apoio massivo de milhões de brasileiros em algumas centenas de localidades, os atos, em sua maioria, ficaram restritos às zonas centrais das cidades aderentes, durante algumas poucas horas de, até o momento, dois dias do ano. Se é verdade que possam ter alterado o funcionamento de estabelecimentos vizinhos e prejudicado o deslocamento da população nessas regiões, isso, por si só, não seria o suficiente para derrubar a produção do país como um todo (diferente da greve dos caminhoneiros, muito mais abrangente).
Em segundo lugar, é preciso ignorar o que é o PIB, como ele é medido e, o pior, o próprio conceito de trimestre e a ordem cronológica do universo. Mesmo assumindo que a paralisação durante algumas horas do dia, geograficamente restrita, tivesse um impacto imenso sobre a produção daquele período, o PIB do primeiro trimestre se refere à soma de tudo aquilo que foi produzido pelo país do primeiro dia do ano, primeiro de janeiro, até o último dia do trimestre, 31 de março.
Não apenas o impacto de dois dias de paralisação seriam diluídos entre os 90 dias auferidos, como as datas das manifestações, 15 de maio e 30 de maio, não fazem parte do primeiro trimestre! Ou seja, os protestos seriam responsáveis, dentro dessa lógica, por causar algo anterior ao seu próprio acontecimento, o que desafiaria as próprias leis da física. O impacto dos protestos, tanto sobre a produção real como sobre as expectativas, só serão mensurados pelo indicador do segundo trimestre, a ser divulgado no terceiro trimestre. Isso acontece porque há um espaço temporal necessário para que os técnicos do IBGE calculem a produção passada, não há mensuração instantânea, é preciso coletar, consolidar e revisar os dados.
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