Boechat e sua mania de alfinetar Ciro Gomes






 Por Luiz Roque e Paulo Henrique Faria 



Em seu editorial na rádio Band News FM, nesta quinta-feira (23/08), o jornalista Ricardo Boechat teceu fortes críticas aos clãs familiares existentes de Norte a Sul do Brasil. Entretanto, despejou no mesmo balaio os irmãos Ferreira Gomes como uma dinastia no Ceará. Enfático ao criticar, com tom de repúdio e tudo, destacou que o presidenciável tem seu irmão como candidato a senador e uma outra irmã que pleiteia vaga para deputada estadual.  

Boechat – que claramente implica com a figura de Ciro – deu a entender que o ex-ministro é adepto do nepotismo. O apresentador da Band comparou a família Ferreira Gomes a tradicionais famílias da política brasileira como os Sarney ou os Barbalho.
Segundo essa avaliação, são todas famílias que se perpetuam no poder misturando a coisa pública com relações familiares, portanto privadas. No entanto, essa crítica a Ciro Gomes não leva em conta os elementos que garantem essa transmissão de poder das famílias realmente tradicionais da política nacional. Analisando de perto a trajetória de Ciro e seus irmãos, fica claro que a carreira política de cada um deles é contra o poder tradicional do seu estado, o Ceará, e não articulam interesses privados de laços familiares. 

O pai deles, José Euclides Ferreira Gomes, foi Prefeito de Sobral na passagem dos anos 1970/80 e, antes disso, era um funcionário público tendo atuado como procurador. O próprio Ciro Gomes sequer nasceu em Sobral, sendo natural de Pindamonhangaba devido a um período que sua família mudou-se para São Paulo, e voltou para o Ceará quando Ciro tinha 4 anos. Dessa forma, Ciro, e seus irmãos, não são herdeiros de grandes interesses econômicos, apenas tendo sido formados por um funcionário público que se envolveu com a política no final da Ditadura Militar. 

Dessa forma, devido a natural influência do pai, Ciro frequentou a política desde cedo, ainda no movimento estudantil concorreu à direção da União Nacional dos Estudantes, e muito jovem foi eleito deputado estadual. Em seguida foi eleito prefeito de Fortaleza pelo recém-fundado PSDB, que nos anos 1980 representava setores intelectuais urbanos de oposição à Ditadura. Foi o prefeito mais popular do Brasil, e em seguida, ganha a eleição para o Governo do Estado contra Paulo Lustosa do PFL (herdeiro da ARENA da Ditadura e atual DEM), sendo o primeiro governador eleito pelo PSDB. Nesta segunda gestão pelo Poder Executivo novamente é considerado o governador mais popular do Brasil, tendo recebido prêmio da ONU pelo combate à mortalidade infantil no Ceará.   

Ciro foi casado com Patrícia Saboya, também política da esquerda cearense, filiada ao PCdoB, com a qual tem três filhos adultos, nenhum dos quais envolvidos em política. Fica claro que Ciro inicia o contrário de um “clã” familiar de dominação política, mas uma trajetória política em oposição às forças tradicionais e oligárquicas de seu estado. 

Seus irmãos, também criados nesse ambiente altamente politizado e de transformação do Ceará, seguiram a carreira política a exemplo do irmão mais velho e do pai. Cid Gomes foi prefeito de Sobral e governador do Ceará com o apoio de Ciro em mais um governo de sucesso nas áreas de educação e saúde, a despeito da oposição das forças políticas tradicionais. E atualmente o irmão mais novo, Ivo Gomes, é o prefeito de Sobral. A presença dos três irmãos na política, e com trajetórias parecidas, é tratada como prova da existência desse domínio de um “clã” familiar. 

No entanto, o pai dos irmãos Ferreira Gomes não era proprietário de terras ou empresas, tampouco lhes deixou meios de comunicação, como é comum nas famílias oligárquicas do Brasil, que possuem rádios e concessões de televisão para defender seus interesses locais. O que passou para os filhos foi a capacidade de articulação política, usada por Ciro para criar uma corrente de pensamento em favor do desenvolvimento cearense, e seguida por seus irmãos como prefeitos e governadores reconhecidos pelo sucesso de suas respectivas gestões.   


Nenhum comentário:

Postar um comentário