Por Gustavo Castañon
A renúncia de Jean
Wyllys não me parece algo a ser condenado ou enaltecido. Me parece nada
mais que uma decisão humana, nada heroica nem demérita.
Um parlamentar não é obrigado a ser mártir. Ele tem o direito de não querer exercer um mandato em ambiente de falta de garantias democráticas. Tampouco considero que ele tenha traído seus eleitores: quando ele se candidatou a eleição de Bolsonaro ainda parecia um pesadelo improvável.
No entanto a narrativa de que já estamos numa ditadura parece quase tão fantasiosa quanto a narrativa da "ditadura bolivariana do PT", que esse pessoal que está agora no poder fazia livremente sem qualquer tipo de restrição.
Bolsonaro não ganhou só a eleição, ganhou a narrativa política no imaginário popular do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Por enquanto.
Quando então digo "quase tão fantasiosa" o faço por três motivos.
Primeiro porque Lula foi condenado e preso num processo completamente absurdo, quando eles bem poderiam ter esperado por uma das acusações menos frágeis que pesam sobre ele. O fato de não o terem feito, indica claramente um recado de que o estado de direito acabou.
Segundo porque o atual presidente e vários de seus auxiliares já deram declarações pregando o fim do regime democrático, e com a crise que eles vão inevitavelmente causar no país, a saída ditatorial não pode ser descartada.
Terceiro porque os EUA decidiram exterminar os nacionalistas em toda a América Latina, e um endurecimento da ditadura judicial e da estratégia de "combate à corrupção" contra a classe política desses países continua de vento em popa.
Enfim, Jean Wyllys não é um exilado político. Ameaças de morte contra quem não se submete às quadrilhas fazem parte da vida política. Eu mesmo nunca exerci cargo executivo ou legislativo eleito algum e já fui ameaçado seriamente duas vezes. No entanto ele tem sim motivos para se sentir em perigo e o peso político de seu autoexílio não pode ser subestimado.
A comemoração de Bolsonaro acerca do fato só demonstra mais uma vez que ele não tem qualquer ideia de onde está e do que deveria ser. Muito menos da complexidade e da gravidade de sua situação perante o mundo.
E só vai piorar.

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