Há uma recorrente retórica dentro do campo progressista que
tenta igualar a candidatura de Haddad e Ciro Gomes, colocando ambos como
"igualmente bons" para combater Bolsonaro. Embora muito bem-intencionado,
esse pensamento é falacioso e nocivo ao país, já que ignora uma diferença
fundamental de projeto entre os dois.
Esta reside no
desenvolvimentismo emancipador de um, com enfoque na Indústria (PDT), e a
subordinação ao Agronegócio e ao Capital Financeiro do outro, adverso à criação
de um parque industrial (PT). Tal oposição é de longa data, desde Brizola
(aliás, as similaridades destas eleições ao pleito de 1989 são inúmeras).
No geral, o PT produziu uma das maiores (para não dizer mais
criminosas) desindustrializações da história do capitalismo moderno (de 18% do
PIB, em 2002, para 11%, em 2017, menor taxa desde 1950), aprofundou nossa
posição subordinada na cadeia produtiva internacional como exportador de
commodities, e expandiu como nunca o agronegócio (23.5% do PIB). A faceta
social do PT, importantíssima para populações mais carentes, fora apenas um
meio para o mais descarado loteamento do país ao rentismo, vista no campo
macroeconômico. Somos, literalmente, uma fazenda do Atlântico Norte:
tragicamente resultado, em grande parte, do projeto petista.
Tal 'projeto' sempre foi a
democratização do consumo pela moeda de troca das commodities, ou seja, trocar
soja bruta por Iphones. Sobe o preço da matéria prima no mercado internacional,
tudo é "lindo" (Lula). Cai o preço, crise avassaladora (Dilma).
Este
"modelo" (porque é ridículo chamar isto de "projeto de
nação") é insustentável. Não rompe a subordinação na cadeia produtiva
global. Não produzimos tecnologia, não produzimos remédios, não temos patentes,
não temos NADA, e importamos TUDO!
A
política de 14 anos do PT foi essa. Não dá mais. Apoiar Haddad sabendo de tudo
isso é puro masoquismo.
A
questão é simples: não existe soberania nacional sem Indústria. Daí que PDT e
PT estão um para o outro assim como nacionalismo e entreguismo,
respectivamente.
A única forma de sair desse atoleiro é a
democratização da PRODUÇÃO, do parque Industrial, com um crescimento
autossustentável do consumo. E aí entra a Estratégia Nacional de
Desenvolvimento de Ciro Gomes.
O desenvolvimento das forças produtivas nacionais, aliado à
distribuição justa, é e sempre será a principal bandeira da esquerda. Então,
sem ilusões, o projeto de Ciro é muito mais à esquerda que aquele que Lula e
seus presidentes por procuração podem jamais pensar em fazer. Não importa o
quão guturalmente tentem atrair as massas.
E enfatizo:
isto não é antipetismo, é enxergar a realidade.
Mikhael Lemos Paiva é graduando em Ciências
Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Ex-pesquisador visitante
pela Università degli Studi di Urbino 'Carlo Bo', Itália.


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