CIRO X HADDAD como opção contra Bolsonaro: ATUALIZADO COM PESQUISA DATAFOLHA 20/09





Tomo sempre o tempo antes para repetir que pesquisa eleitoral, para mim que trabalho com pesquisa, é apenas Datafolha, Ipsos e Ibope. Eu não analisei a pesquisa Ibope de 2 dias atrás por dois motivos: não tive tempo, trabalho pegando, e porque não ia poder fazer uma evolução, já que as metodologias não são comparáveis (sim, você não pode comparar uma pesquisa Datafolha com Ibope para olhar evolução). Ibope faz painel domiciliar, com um painel fixo de pessoas. Datafolha fala com pessoas aleatórias na rua. Além de preferir a metodologia Datafolha, agora que estou analisando em série, só faz sentido comparar laranjas com laranjas. Vamos lá, comparando os três períodos (você pode checar os dados você mesmo, aqui: https://glo.bo/2xBQA4r), temos:
Jair Bolsonaro (PSL): de 24% a 26% para 28%
Ciro Gomes (PDT): estável em 13%
Marina Silva (Rede): de 11% a 8% para 7%
Geraldo Alckmin (PSDB): de 10% a 9% e estabilidade
Fernando Haddad (PT): de 9% para 13% para 16%
(todos os demais, menos de 3%)

Novamente, como a pesquisa tem uma possível margem de erro de 2% pra cima ou 2% pra baixo (desvio padrão), podemos afirmar que nada mudou para Ciro, Marina e Alckmin no curto prazo, o crescimento real é dos 3% de Haddad e a queda real (se olhar os dois períodos) é de Marina.

Bolsonaro também cresce apenas 2% e pode ser margem de erro, mas ele tem crescido consistentemente, e assim como na última análise, meu palpite é que o crescimento é real. No acumulado dos dois períodos ele cresce 4%. Vamos sentindo paulatinamente o "efeito facada", que deve permanecer. Seu lugar no segundo turno está praticamente garantindo, a não ser que haja uma mudança brusca de eventos. A dúvida segue: quem vai pro segundo turno?

Para mim, a questão não está decidida. Ciro e Haddad seguem empatados pela margem de erro, onde Ciro pode ter de 11% a 15%, e Haddad de 14% para 17%. Isso é, metodologicamente, ainda um empate técnico. Mas uma coisa é clara: Haddad não cresceu tanto quanto na última leitura, e isso significa que ele pode tanto estabilizar, quanto continuar crescendo, mas menos. Aquela grande transferência esperada dos votos totais de Lula continua a não aparecer.

Alckmin e Marina, no entanto, tem poucas chances de alçar novos patamares, pois estão há três leituras consecutivas caindo. A não ser que algo movimento bruscamente o volume de votos para eles (um fator fora do comum, ou como chamamos na estatística, um "cisne negro", as chances de que isso mude são baixas).

E as rejeições? Vou olhar apenas o acumulado dos dois períodos para não ficar esbarrando em margem de erro. Eis os números:
Bolsonaro: de 43% a 44% para 43% (estabilidade)
Marina: de 29% a 30% para 32% (+3%)
Alckmin: de 24% a 25% para 24% (estabilidade)
Haddad: de 22% a 26% para 29% (+7%)
Ciro: cresce de 20% para 21% para 22% (+2%)

No curto prazo, todas as rejeições estão dentro da margem de erro da pesquisa e não devem ser consideradas, com exceção da de Haddad, que cresce 3% nessa leitura, depois de crescer 4% na leitura anterior, acumulando 7% em duas leituras. Haddad cresceu em rejeição os exatos 7% que cresceu em intenção de votos nesse período, o que mostra a força da polarização do candidato. Ele ganha novos adeptos na mesma medida que ganha pessoas que declaram que "não votariam nele de jeito nenhum" (a metodologia da pergunta de rejeição é essa, para todos).

     Se a tendência de rejeição das duas últimas leituras se mantiver exatamente idêntica a essas duas leituras passadas, a apenas poucos dias antes da eleição, o cenário seria:
Bolsonaro: 43% (estabilidade)
Marina: 35% (+3%)
Alckmin: 24% (estabilidade)
Haddad: 36% (+7%)
Ciro: 24% (+2%)

Novamente, o segundo turno cai entre Ciro e Haddad. Como estamos nos cenários de segundo turno? Por motivos óbvios é muito número pra visualizar, vou colocar apenas os dados da primeira leitura contra a terceira, o acumulado.
Ciro x Bolsonaro: de 45% x 35% para 45% x 39%
Alckmin x Bolsonaro: de 43% x 34% para 40 x 39%
Marina x Bolsonaro: de 43% x 37% para 41% x 42%
Haddad x Bolsonaro: de 39% x 38% para 41% x 41%

Anteriormente, todos os candidatos, com exceção de Haddad, venciam Bolsonaro no segundo turno. O número agora é absolutamente alarmante: dessa vez, APENAS CIRO o bate no segundo turno, sendo que nos outros três cenários eles estão ainda em empate técnico dentro da margem de 2%, no entanto, com tendência positiva de crescimento pro Bolsonaro no longo prazo (duas leituras) em TODOS os cenários, enquanto todos os outros candidatos ficaram estáveis, com exceção de Alckmin, que cai 3%.

Isso é o quão preocupante é o nosso momento. Temos apenas um candidato cuja vitória extrapola a perigosa margem de erro que pode dar a vitória para ou um ou outro, que é Ciro, que mantém a distância de 6% do oponente (Ciro 45% x 39% Bolsonaro).  

Se por conta da última pesquisa Ibope você se desesperou e decidiu que era hora de verter seus votos para Haddad, segure esse pensamento. Os próximos dados (e estarei analisando apenas Datafolha) terão o reflexo de eleitores desanimados de Alckmin e Marina, que mais e mais podem migrar para os demais candidatos. Não é possível, por nenhuma das metodologias, dizer de quem saiu o voto para quem foi, então essa próxima sessão da análise é uma opinião minha:
Bolsonaro parece comer os votos de Alckmin, conforme se consolida como a única opção estritamente de direita a ter chance de levar a presidência. Os votos de Marina, no entanto, podem ter migrado para Ciro ou Haddad, e pode ter havido migração de Ciro para Haddad, mas este se manteve estável, ou porque não migrou, ou porque recebeu votos de Marina.

Nem todos os eleitores de Alckmin, no entanto, simpatizam com Bolsonaro, assim como os candidatos menores (Meirelles, Boulos, Amoedo, etc) devem também perder alguma força no dia do pleito por conta da baixa performance nas pesquisas e campanhas, e também o total de 5% de indecisos deve fazer sua opção.

Como foi essa relação entre pesquisa e realidade em 2014?

Em 2014, a indecisão não declarada do eleitor fez com que o jogo pelo segundo lugar virasse. Dilma liderava as pesquisas até 19/09 com 37%, Marina seguia em segundo lugar com 30%, e Aécio seguia em terceiro com 17%. O segundo turno parecia definido entre Dilma e Marina.

No entanto, no último momento, os eleitores de Marina migraram massivamente para Aécio, que foi ao segundo turno com 33%, enquanto Dilma também cresceu para 41%.

Parte dessa mudança de última hora pode ser explicada para o fato de que Marina seguia caindo consistentemente desde agosto até a eleição em outubro, e na incerteza de fazer oposição à Dilma, os eleitores migraram para o PSDB, partido mais sólido e tradicional, seguro.

O mesmo pode acontecer nesse momento. Haddad e Ciro seguem empatados tecnicamente, mas a informação de que Ciro é o ÚNICO candidato que agora bate Bolsonaro, e apenas 10 dias atrás, todos os demais com exceção de Haddad também batiam é uma informação relevante.

Novamente: Ciro hoje é o ÚNICO candidato que bate Bolsonaro no segundo turno. Os demais seguem num empate técnico, mas com crescimento de Bolsonaro no longo prazo avançando leitura a leitura.

Outra coisa que avança leitura a leitura é a rejeição de Haddad, que além de ter sido a única que cresceu acima da margem de erro, também conta com uma rejeição partidária contra o PT (o chamado "anti-petismo") que é lido apenas pelo Ibope, e que acomoda hoje 30% de todo o eleitorado. Para entender mais sobre essa pesquisa, deixo matéria excelente do El País: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/16/politica/1537131928_759863.html   

Se mandarmos Haddad para o segundo turno, o candidato com a segunda maior rejeição irá disputar com Bolsonaro, sendo que nas pesquisas os dois estão empatados tecnicamente. Quão perigoso é este cenário, frente a todo o antipetismo que vivemos?!

Em 2014, Dilma venceu o segundo turno por apenas 3% (51% x 48% Aécio). Apenas 3%. Nessa época, o antipetismo não estava nem próximo do que é hoje, depois de Lava-Jato, Impeachment e Lula preso, e Aécio era um candidato MUITO mais fraco que Bolsonaro. Aécio recebeu um apoio DESCOMUNAL durante sua campanha de 2014, Revista Veja fazendo praticamente propaganda política na capa, Jornal Nacional, o maior tempo de TV da Eleição (o mesmo que hoje Alckmin desperdiça), verba de campanha da JBS, Itaú, Odebrecht e outros gigantes que hoje não podem mais financiar campanha, vídeos e mais vídeos de celebridades dizendo "quero mudança, quero Aécio", Ronaldo fenômeno fazendo palanque eleitoral, enfim. E quase não foi ao segundo turno. Foi na última hora, no último grito do segundo tempo.

Bolsonaro não tem NADA disso. Tem segundos de tempo de TV, nada de revista Veja, os jornais o posicionam de forma negativa, não tem verba para comerciais de TV, e mesmo assim ele cresce consistentemente só na base do boca a boca e desejo dos eleitores.

Bolsonaro é muito mais forte do que Aécio jamais foi, com recursos monumentalmente menores. E mesmo assim, Dilma, que ocupava o cargo na época (isso sempre é vantagem), que teve apoio de Lula pela campanha toda, e não só na reta final, venceu por apenas 3%.

O momento é perigoso para apostar no PT. Lembrem-se: o único candidato que ainda vence Bolsonaro no segundo turno é Ciro Gomes. E a boa notícia é que seus planos de governo são bons; ambos. E similares.

Em resumo: PERIGO. Se o seu objetivo é motivado pelo desespero, se o foco é impedir que o Bolsonaro ganhe (como é o meu), saiba que com Haddad o futuro é incerto, e com Ciro, muito mais seguro.

Novamente, boa sorte pra todos nós que sentem que nenhuma das opções hoje representa os reais interesses da população, e que estamos, mais uma vez, perpetuando a "velha política", mas que temos mais medo de Bolsonaro presidente para o bem da nação do que qualquer coisa.  

Alexandre Morgado é publicitário e especialista em pesquisas eleitorais. Natural de Bauru e hoje residente em São Paulo.

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